domingo, 20 de outubro de 2013

Erva-de-passarinho: planta parasita é promissora contra tuberculose

Fernanda Leitão

Enquanto jardineiros abominam a erva-de-passarinho por parasitar as árvores que cultivam, nas feiras livres da região serrana do Rio de Janeiro ela é tratada com mais apreço. Segundo muitos "erveiros" - feirantes reconhecidos pelas comunidades locais como especialistas em plantas medicinais -, esta "erva daninha" teria propriedades terapêuticas contra males pulmonares e especificamente contra tuberculose.

Texto e foto da Marina Lemle

Para verificar cientificamente se a planta, da família Loranthaceae, do gênero Struthanthus , é de fato eficaz no combate à doença e descobrir qual seria a substância ativa responsável pelo suposto efeito, a bióloga Fernanda Leitão (foto) avaliou em laboratório a atividade antimicobacteriana de dois tipos de erva-de-passarinho: a "miúda" e a "graúda". Descobriu que o extrato das folhas da "miúda" - denominada Struthantus concinnus - é promissora no combate ao Mycobacterium tuberculosis , causador da tuberculose que infecta 80 de cada 100 mil habitantes do estado do Rio de Janeiro - incidência quase duas vezes maior que a média brasileira, de 43 por 100 mil habitantes (segundo dados de 2005).

O estudo da erva-de-passarinho é parte de uma grande pesquisa etnobotânica que Fernanda desenvolveu para o seu doutorado em Biotecnologia Vegetal pela UFRJ. Numa parceria com o Jardim Botânico do Rio de Janeiro (JBRJ) e com a Universidade Federal do Rio Grande (Furg), ela analisou 36 espécies vendidas em feiras de 20 municípios fluminenses com mais de 100 mil habitantes.

Duas perguntas foram feitas aos erveiros: "Quais as cinco plantas que mais usa para tosse e pulmão?" e "Quais plantas indica para tuberculose?". Para tosse e pulmão, o assa-peixe foi campeão, seguido pelo guaco. No caso da tuberculose, assa-peixe e erva de passarinho empataram, com sete indicações cada. Em seguida foram recomendados mastruz ou Santa Maria e saião. Não houve nenhuma indicação de guaco para tuberculose.

As plantas indicadas foram compradas e analisadas. Depois de secas em temperatura ambiente no laboratório, foram submetidas a extração com etanol e o extrato verde seco enviado para ensaio biológico. Da Struthanthus marginatus (a erva-de-passarinho "graúda"), foi analisada a parte aérea, moída em moinho elétrico. Da Struthanthus concinnus (miúda), usou-se só as folhas. Isso porque a pesquisadora seguiu as orientações do modo de usar dos erveiros. As substâncias foram isoladas e sua atividade testada com cepa padrão de Mycobacterium tuberculosis e com outra cepa resistente a antibiótico.

"A Struthanthus concinnus teve resultados muito promissores", contou Fernanda, acrescentando que um dos erveiros já sabia disso e explicou-lhe: "Existem dois tipos de erva-de-passarinho: a miúda e a graúda. A melhor é a miúda." Contudo, mais estudos ainda são necessários.

Segundo a bióloga, as pesquisas etnobotânicas realizadas em feiras buscam verificar o potencial de desenvolvimento de novos fármacos a partir do conhecimento tradicional. "A cidade também tem saberes ecológicos. Os feirantes são um campo de investigação. Eles trocam conhecimentos entre si. Mas os trabalhos em etnobotânica ainda são escassos. O Rio de Janeiro tem só cinco trabalhos na área. No caso da erva-de-passarinho, existem pouquíssimos trabalhos in vitro e in vivo", revelou. Ela acrescentou que o conhecimento tradicional tende a se perder, porque as novas gerações (filhos de erveiros) não estão dando continuidade ao trabalho.

A pesquisadora proferiu a palestra "Se a erva é de passarinho, o homem pode usar?" em 27 de junho de 2013 no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. A série de palestras mensais da Coleção Temática de Plantas Medicinais do JBRJ tem coordenação de Angela Porto e Yara Britto. Mais informações e inscrições pelo pelo e-mail colecaomedicinal@gmail.com ou pelo telefone (21) 2294-6590.

Data: 10.08.2013

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